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O presidente Donald Trump decidiu elevar de 10% para 15% a sobretaxa global sobre importações, invocando a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. O argumento oficial é o mesmo: corrigir um desequilíbrio “grave e sério” no balanço de pagamentos dos Estados Unidos.

O problema é que os números não confirmam essa tese.

Dados oficiais divulgados em 19 de fevereiro de 2026 mostram que o déficit comercial total de bens e serviços dos EUA em 2025 foi de US$ 901,5 bilhões. Houve uma leve redução de 0,2% em relação ao ano anterior, mas ainda assim trata-se do terceiro maior déficit da história americana.

Mais revelador ainda é o déficit apenas de bens, exatamente o foco político da Casa Branca. Em 2025, ele atingiu US$ 1,24 trilhão, um recorde absoluto. Ou seja: mesmo com tarifas agressivas, o rombo nas importações de produtos físicos não encolheu.

Por que o déficit total não explodiu ainda mais? Porque os Estados Unidos mantêm um forte superávit em serviços, tecnologia, finanças, propriedade intelectual e turismo, que compensa parte do buraco nos bens. A economia americana exporta software, royalties e serviços financeiros; importa máquinas, eletrônicos e manufaturas.

Outro dado desmonta o discurso protecionista: as importações continuaram subindo. Em 2025, cresceram quase 5% e atingiram nível recorde. O consumidor americano segue forte, e a indústria depende de componentes que simplesmente não são produzidos internamente.

O que houve foi um redesenho geográfico do comércio. As compras vindas da China caíram cerca de 28%, mas aumentaram as importações de países como Vietnã, México e Taiwan. O déficit não desapareceu, apenas mudou de endereço.

Os resultados de dezembro de 2025 reforçou essa realidade. O déficit mensal saltou 32,6%, alcançando US$ 70,3 bilhões, impulsionado pela alta nas importações de bens de capital e eletrônicos, enquanto as exportações recuaram.

Em termos práticos, o chamado “tarifaço” gerou arrecadação bilionária para o Tesouro americano, paga, em grande parte, por importadores e consumidores dos próprios Estados Unidos, mas não resolveu o desequilíbrio estrutural do comércio externo.

É justamente nesse contexto que a Seção 122 surge como novo instrumento jurídico. Ela permite tarifas temporárias de até 15% por 150 dias, com necessidade de aval do Congresso para extensão.

Mas aqui está o ponto central da análise: se o fundamento legal é o desequilíbrio externo, os números mostram que ele persiste — apesar das tarifas já aplicadas.

Isso enfraquece a narrativa de que a sobretaxa é a solução técnica para o problema comercial americano. O déficit continua elevado porque está ligado à estrutura da economia dos EUA: consumo robusto, dólar forte e dependência de cadeias globais.

Tarifa é instrumento. Estrutura econômica é realidade. E, enquanto Washington insiste na primeira, os números mostram que a segunda permanece praticamente intacta.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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